Ainda bem que nada correu como eu queria

Ontem fui visitar a minha avó. Quando cheguei a sua casa, estava tudo igual ao de sempre: as mesmas molduras antigas na parede, os mesmos panos rendados cuidadosamente estendidos as mesas, o cheiro quente a sopa e a legumes frescos. Tudo igual… menos uma coisa. A companhia habitual já não estava lá, a do meu avô. Desde que ele partiu, faço questão de ir visitá-la mais vezes, pois não quero que ela se sinta sozinha. E, na verdade, tudo o que ela mais gosta de fazer agora é falar sobre ele e eu deixo. Deixo sempre. Porque adoro ouvi-la falar e não há só tristeza nas suas palavras, há orgulho, há amor, há saudades, há uma vontade bonita de o manter vivo entre nós.

Ontem não foi diferente. Metade da conversa girou à volta do meu avô, mas houve algo especial, algo que ficou comigo até hoje. Quando me sentei no sofá, reparei que ela tinha uns caderninhos vintage no colo. Gastos, com aquele charme intemporal. Sem dizer muito, colocou-os nas minhas mãos.

— O teu avô adorava escrever — disse ela. — Não era escritor, mas escrevia coisas bonitas dentro da sua imperfeição… cometia erros, não sabia usar palavras complicadas. Mas adorava e escrevia sempre que podia. Fez uma pausa, como se estivesse a escolher bem o que dizer a seguir.

— Às vezes mostrava-me, mas tinha vergonha de o fazer, achava que eu me ia rir dele.

Sorriu, com uma ternura que me apertou o peito.

— Estes caderninhos comprámo-los numa loja vintage, numa viagem que fizemos há muitos anos atrás a Lisboa. Ele apaixonou-se por eles. Hoje voltei a abri-los… e foi como se tivesse voltado atrás no tempo. Como se estivesse dentro da cabeça dele, a ver o mundo pelos olhos dele. Vou ler-te um bocadinho.

E começou:

“Na minha vida, nada correu como planeado. Nem eu fui planeado. Fui o sexto de oito irmãos, nascidos quase por acaso. Fui estudar depois da quarta classe também por acaso, porque o padre da aldeia ajudava quem ficasse a cuidar da casa dele, e a minha mãe obrigou-me a ir.

Mais tarde, chegou a carta da tropa e fui parar às terras quentes de Angola, sem saber por quanto tempo. Tive de deixar tudo para trás.

Um dia, um colega obrigou-me a ir a um baile, precisava de um par. E foi lá que vi a Margarida. Nesse momento, o coração decidiu por mim. Apaixonei-me sem escolha.

Mudei-me para a terra dela. Planeámos casar, mas antes disso chegou outra surpresa: um bebé a caminho. Não estava nos planos. Pelo menos não naquela altura.

Apressámos tudo. Casei-me e fui para França trabalhar, para dar uma vida melhor à minha filha e à minha Margarida. Foi lá, através de um primo de um conhecido meu, também por acaso, que descobri a minha paixão por carros. Tornei-me mecânico.

E, no meio de tantos acasos, a vida acabou por correr melhor do que eu alguma vez poderia ter planeado. Ainda bem que nada correu como eu queria.”

Quando a minha avó terminou, tinha lágrimas nos olhos. E eu também. Mas, mais do que emocionada, eu estava surpreendida. Fascinada. Aqueles não eram apenas pensamentos soltos, era o meu avô ali, inteiro, vivo nas palavras.

Queria ver mais, ler mais. Pedi-lhe os caderninhos emprestados. Assim que cheguei a casa, comecei a lê-los. E não parei, passei a noite inteira acordada e nunca me senti tão próxima dele.

Descobri um lado que nunca tinha conhecido, as suas dúvidas, as suas reflexões, a forma como via o mundo. Havia ali uma profundidade inesperada, uma sensibilidade escondida entre frases simples.

Hoje voltei a casa da minha avó para devolver os cadernos. Mas voltei diferente, menos vazia. Porque percebi que o avô não se foi, apenas mudou de morada. Agora vive nas histórias, nas memórias e, de alguma forma, também em mim.

E talvez tenha sido isso que ele me deixou sem saber: a vontade de escrever também.

Por isso, este é o primeiro texto que escrevo aqui, neste pequeno caderno que agora levo comigo. Tal como ele levou o dele.


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