Caderno de outros dias

Encontrei-o por acaso, enquanto arrumava a fundo o meu quarto. Tinha-o trazido de casa dos meus pais e nunca mais lhe tinha tocado. E ali estava ele, o meu caderno da adolescência. Capa com ilustrações vintage de flores, ligeiramente gasta nos cantos, uma dobra teimosa no lado direito, como se tivesse sido muitas vezes aberto à pressa.

Sentei-me no chão, de pernas cruzadas, com a luz da tarde a entrar oblíqua pela janela. Durante alguns segundos limitei-me a passar a mão sobre a capa, como quem reconhece um rosto antigo. Não me lembrava de o ter guardado. Durante anos, convenci-me de que o tinha deitado fora durante uma arrumação, numa tentativa quase simbólica de me libertar da pessoa que fui.

Abri-o. A primeira página estava datada com uma letra arredondada e exageradamente inclinada. Reconheci de imediato o momento em que a escrevi.

“Hoje percebi que ninguém me entende.”

Sorri — com vergonha, mas também com ternura. Aquela frase, que agora me soava tão crua e dramática, era na altura uma coisa que sentia. Lembro-me da intensidade dos sentimentos, do modo como cada silêncio e cada desafio pareciam definitivos, e cada olhar carregado de significados ocultos. A adolescência tinha o peso de uma tragédia grega e a leveza inconsistente de uma tempestade de verão.

Continuei a ler. Havia páginas preenchidas com desabafos sobre amigos, pais, professores e também listas de sonhos e resoluções. Queria ser independente, queria sair da cidade, queria “não depender de ninguém”. Sublinhado duas vezes. A tinta estava já esbatida, mas a determinação permanecia quase intacta no traço.

Perguntei-me quando foi que percebi que depender do outro também é necessário, que não é fraqueza, mas sim a condição humana. Quando deixei de ver a vulnerabilidade como falha e passei a entendê-la como ponte.

Folheei mais algumas páginas e encontrei uma que falava de um amor que, na altura, me parecia único e arrebatador. As palavras eram inflamadas, desmedidas, como se o mundo pudesse acabar à força da intensidade do que eu sentia. Descrevia o modo como ele sorria, como me segurava a mão no intervalo das aulas, como o futuro se desenhava inevitavelmente a dois.

Fechei os olhos por instantes. Não para reviver, mas para reconhecer a pureza daquela crença. Não sabíamos nada sobre o mundo, mas acreditávamos saber tudo sobre o amor. Havia uma coragem inocente em sentir sem reservas, em prometer eternidades com dezasseis anos.

Avancei algumas páginas e encontrei raiva. Frases escritas com mais força do que tinta, quase a rasgar o papel. Sentia-me injustiçada, incompreendida, aprisionada numa vida que julgava pequena demais para mim. Queria partir, mudar de nome, reinventar-me.

É curioso: parti, sim. Mudei de cidade, de casa, de rotinas. Reinventei-me várias vezes, tantas que por vezes me pergunto qual delas é a versão definitiva. E, no entanto, ao ler aquelas linhas, percebo que a essência, a inquietação, a vontade de mais, permanece. Apenas aprendi a dar-lhe contornos mais serenos.

Na aba final do caderno encontrei também umas cartas das minhas melhores amigas, com dedicatórias onde jurávamos ser amigas para sempre e, quem sabe, viver juntas. As folhas estavam dobradas com cuidado, como se guardassem um pacto sagrado. Como é que, depois de tanto tempo, perdemos o contacto? Em que curva da vida deixámos de nos reconhecer?

Com essa inquietação, pus-me a refletir: aquele caderno era um espelho cru de quem eu estava a tentar ser. Entre confissões e exageros, havia momentos de lucidez surpreendente. Não senti vergonha da adolescente que fui. Senti gratidão. Pela intensidade, pela honestidade desajeitada, pela forma absoluta como acreditava que cada emoção era única e insubstituível. Ela ainda não sabia negociar com o mundo, mas sabia sentir  e isso é uma espécie de sabedoria primitiva que, com o tempo, tendemos a polir em demasia.

Levantei-me do chão e coloquei o caderno sobre a secretária. Fiquei a olhar para ele durante alguns segundos e pensei que talvez devesse comprar um semelhante, recomeçar esse diálogo silencioso comigo mesma. Escrever de novo, sem filtros, sem a preocupação de parecer coerente ou madura. E, quem sabe, daqui a dez anos voltar a lê-lo e continuar a aprender coisas sobre mim.

Há algo profundamente reconciliador em reconhecer quem fomos sem desejar corrigir cada frase. Aceitar que aquelas palavras, por mais excessivas que pareçam hoje, foram verdadeiras no instante em que nasceram.


Cadernos Cavallini

Os cadernos da Cavallini distinguem-se pela sua capa dura resistente e por um design intemporal, inspirado numa estética clássica que nunca perde elegância. No interior, contam com 144 páginas pautadas de elevada qualidade, ideais para uma escrita fluida e organizada, bem como um prático bolso interior na contracapa, perfeito para guardar pequenos apontamentos, bilhetes ou memórias soltas.

O elástico de fecho assegura que o caderno se mantenha protegido no dia a dia, preservando o seu conteúdo com discrição e cuidado. As imagens vintage que adornam cada capa, provenientes dos arquivos históricos da marca, conferem-lhe um carácter distinto, onde o detalhe e o bom gosto se encontram.

Disponíveis em diferentes tamanhos, adaptam-se a vários estilos e necessidades, tornando-se companheiros ideais para registar ideias, documentar viagens ou tomar notas em movimento, sempre com um toque de sofisticação.

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