Uma varanda virada para o mar

Quando cheguei a casa e me deixei cair no sofá, pensei: “Finalmente! Preciso mesmo de tirar uns dias para mim”. Nesse instante, o meu gato saltou-me para o colo à procura de festinhas, como se soubesse exatamente do que eu precisava.
Olhei em volta. A casa precisava de atenção. Os vidros estavam por limpar, ainda tinha de aspirar debaixo do sofá, preparar o almoço para o dia seguinte, pôr uma máquina de roupa a lavar e enfrentar a pilha de roupa para passar que parecia crescer todos os dias.
Entre o trabalho, as deslocações, o ginásio, os amigos, os workshops e todos os compromissos, sobrava muito pouco tempo para mim. Ao fim de algum tempo, aquele ritmo começou a sentir-se. Sentia que passava a vida a correr de um lado para o outro, preocupada com tudo o que tinha para fazer, sem tempo para saborear as experiências que vivia.
Fechei os olhos por um instante. O gato continuava enroscado no meu colo e, pela primeira vez em muito tempo, não peguei no telemóvel. Respirei fundo. Inspirei. Expirei. Aos poucos, senti o corpo relaxar e a mente ficar em silêncio.
Foi então que aconteceu.
Sem perceber como, senti a brisa fresca do mar a entrar pela janela. O cheiro a maresia, o calor do sol na pele, o som distante das ondas... Estava novamente em casa da minha avó. Passei lá tantas férias quando era pequena e, desde que ela morreu, nunca mais tinha voltado. No entanto, naquele momento, tudo parecia exatamente igual. Era como se o tempo não tivesse passado. Reconhecia cada sensação, cada aroma, cada pedaço daquela paz.
Nessa noite dormi profundamente, como já não dormia há muito tempo.
Na manhã seguinte tomei uma decisão. Reservei uma pequena casa na mesma vila onde a minha avó tinha vivido e marquei alguns dias de descanso.
Quando cheguei, percebi que muita coisa tinha mudado. É normal. Os lugares evoluem, quem fica parado no tempo são as nossas memórias. Ainda assim, o meu coração continuava a reconhecer aquele cheiro, aquelas ruas, a luz do fim da tarde e a calma daquele lugar.
Levei apenas uma mala pequena. Afinal, eram só alguns dias.
A casa onde fiquei era simples, rústica e sem grandes luxos, mas tinha uma varanda virada para o mar. Bastava abrir as portadas para sentir a maresia e assistir a um dos mais bonitos pores do sol que alguma vez tinha visto.
Nesse primeiro dia fui ao minimercado da vila comprar o essencial e fui recebida com uma simpatia que me desarmou. Disse à senhora que estava na caixa que era neta da Dona Lurdes e os olhos dela iluminaram-se de imediato.
— Ai és tu? A tua avó era uma mulher extraordinária...
Ficámos ali alguns minutos à conversa. Contou-me histórias que eu nunca tinha ouvido e, por momentos, senti que a minha avó ainda fazia parte daquele lugar.
Regressei a casa, arrumei as compras e comecei a preparar o almoço. Estava quase tudo pronto quando percebi que me faltava sal.
Podia caminhar quinze minutos até ao supermercado debaixo daquele calor ou ganhar coragem e bater à porta do vizinho.
Optei pela segunda hipótese.
Bati timidamente e, quando a porta se abriu, apareceu um rapaz da minha idade.
— Olá... Desculpa incomodar. Estou na casa ao lado durante uns dias e esqueci-me de comprar sal para.
Sorriu de imediato.
— Claro. Espera só um instante.
Voltou com um frasco de sal na mão e, antes de mo entregar, perguntou:
— Já agora, vais fazer alguma salada? queres umas alfaces? Tenho ali umas acabadas de apanhar.
Aceitei, agradecida.
Quando me preparava para voltar para casa, acrescentou:
— Se depois do almoço te apetecer um café, aparece. Estás convidada.
Ri-me.
— Acho que vou aceitar... até porque acabei de me lembrar que também me esqueci de comprar café.
Ele riu-se também.
Depois de almoço bati novamente à porta do vizinho, chamava-se Manuel.
Na varanda tinha preparado uma pequena mesa para dois. Uma toalha de chá antiga, cuidadosamente estendida, um prato com bolachas caseiras e duas canecas vintage absolutamente encantadoras. A minha tinha pequenas flores silvestres desenhadas e a dele, cogumelos coloridos.
À nossa frente, o mar parecia não ter fim. O café arrefeceu muitas vezes enquanto a conversa continuava. Falámos das nossas vidas, das viagens que sonhávamos fazer, das memórias de infância, dos livros que gostávamos de ler e da tranquilidade daquela vila.
Sem darmos conta, aquele café passou a ser frequente.
Todos os dias, depois do almoço, encontrávamo-nos na varanda. A toalha era sempre a mesma, as bolachas também e as canecas esperavam-nos sempre no mesmo lugar.
Os dias começaram a voar livremente e deixei de saber se era terça ou sexta-feira. O telemóvel estava quase sempre esquecido dentro da carteira e não sentia aquela urgência de ir ver as notificações. Dormia melhor, ria mais e, pela primeira vez em muito tempo, sentia que estava verdadeiramente presente.
Mas as férias chegaram ao fim e na última tarde, fui tomar o nosso café como sempre.
Quando me sentei, reparei que a minha caneca já não estava sobre a mesa e, no seu lugar havia outra, igualmente bonita, vintage, decorada com delicadas borboletas.
Estranhei, mas não disse nada. O Manuel apareceu poucos segundos depois com um pequeno embrulho nas mãos.
— Isto é para ti.
Abri-o devagar.
Lá dentro estava a minha caneca, a das flores silvestres. Olhei para ele, sem conseguir esconder o sorriso.
— Para me sentires por perto sempre que beberes café.
Concluiu ele.
Sorri.
— Então fico à espera que leves a tua quando me fores visitar.
Ele aproximou-se um pouco mais.
— Combinado.
E foi assim, entre o cheiro do café, o som das ondas e duas canecas que aconteceu o nosso primeiro beijo.
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